Caio Diniz Fonseca

Outro dia, conversando com uma amiga, também magistrada, percebi que compartilhávamos o incômodo de ficarmos calados justamente quando mais se espera que a gente fale.

A Constituição proíbe os juízes de exercer atividade político-partidária, e há boas razões para isso. A sociedade tem o direito de confiar que suas causas serão julgadas por alguém que não se apresenta publicamente como militante deste ou daquele grupo político. A restrição, portanto, existe em benefício de todos nós. O problema está nas margens. Em que momento uma opinião sobre os rumos do país deixa de ser a manifestação legítima de um cidadão e passa a ser considerada atividade político-partidária? Essa fronteira nem sempre é clara. E, diante da dúvida, muitas vezes preferimos o silêncio.

Mas juízes também têm suas histórias, experiências, convicções e inquietações. Não deixamos de ser cidadãos quando vestimos a toga. Lemos as mesmas notícias, acompanhamos os mesmos debates, temos nossas esperanças e nossos receios. Às vezes, temos também uma vontade enorme de dizer o que pensamos. Talvez quem esteja de fora não compreenda o peso dessa contenção. Vivemos um tempo em que quase tudo exige uma tomada de posição. O silêncio, não raro, é interpretado como omissão ou covardia. Como se fosse obrigatório escolher um lado em toda discussão, sob pena de ser automaticamente incluído no lado oposto. E como se a importância da causa defendida autorizasse qualquer meio empregado para defendê-la.

Confesso que me preocupa o país que estamos construindo. Inquieta-me a facilidade com que passamos a tratar adversários como inimigos, a tolerar agressões quando partem daqueles com quem concordamos e a relativizar princípios em nome de vitórias circunstanciais. Não acredito que os diferentes projetos políticos sejam todos iguais, nem que suas consequências sejam indiferentes. Mas tampouco consigo enxergar virtude na disposição de absolver todos os erros de quem está do nosso lado.

Meu sogro costumava dizer algo que carrego comigo há muitos anos: é melhor ser feliz do que ter razão.

Quanto mais observo as discussões políticas, mais sentido essa frase faz. Não se trata de renunciar às próprias convicções, muito menos de ser indiferente ao que acontece no país, mas sim de reconhecer que nem toda discussão precisa ser vencida. E que o preço de ter razão, às vezes, é alto demais.

Uma amizade desfeita, uma família dividida, pessoas antes mutuamente queridas que deixam de se falar. Tudo isso tem consequências muito mais próximas e duradouras do que a satisfação de ver derrotado o candidato que não queríamos eleger.

Evidentemente, o resultado de uma eleição importa. Importa muito. As decisões de quem governa têm efeitos reais sobre a vida das pessoas, especialmente daquelas que dispõem de menos meios para se proteger de suas consequências. Mas penso que a maneira como cada um de nós recebe esse resultado também diz muito sobre o país em que queremos viver.

Haverá vencedores e vencidos nas urnas, isso faz parte da democracia. O que não deveria fazer parte dela é a necessidade de humilhar quem perdeu, de romper com quem pensa diferente ou de transformar toda divergência em uma questão de caráter.

Talvez seja esse o meu maior desejo para o dia seguinte à eleição: que, independentemente do resultado, ainda sejamos capazes de sentar à mesma mesa, conversar e reconhecer no outro alguém que merece nosso afeto e respeito.

Quanto ao silêncio que a magistratura tantas vezes nos impõe, sigo aprendendo a conviver com ele. Nem sempre é fácil. Mas é bom lembrar que, por trás de alguém que prefere não se manifestar, pode haver muito mais do que indiferença. Pode haver, inclusive, uma opinião bastante firme. E um esforço igualmente grande para não a expressar.

Fonte: JuriNews

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