O presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), Sérgio Ricardo de Almeida, realizou 150 saques em dinheiro vivo que somaram R$ 15,6 milhões em apenas dez meses, segundo relatório da Polícia Federal (PF). As operações ocorreram entre janeiro e outubro de 2025 e fazem parte da Operação Tomada de Conta, que investiga um suposto esquema de corrupção e lavagem de dinheiro liderado pelo conselheiro dentro da Corte de Contas.
A investigação aponta que o dinheiro teria sido retirado de recursos públicos repassados oficialmente pelo próprio tribunal. Depois dos créditos, os valores eram sacados ou transferidos de maneira pulverizada entre diferentes contas, em uma tentativa de dificultar o rastreamento da movimentação financeira.
No período de 294 dias analisado, a Polícia Federal identificou R$ 75,85 milhões em movimentações consideradas suspeitas. Os investigadores também encontraram indícios de pagamentos extraordinários a servidores públicos e pessoas particulares, em quantias incompatíveis com os limites legais e com as remunerações oficialmente divulgadas.
Os levantamentos bancários identificaram 101 lançamentos destinados a Sérgio Ricardo em menos de dez meses, totalizando R$ 15,44 milhões. Desse montante, R$ 10,78 milhões foram registrados como ordens bancárias avulsas, enquanto outros valores apareceram nas rubricas de fornecedores. Também foram identificados R$ 304,9 mil em pagamentos de salário.
Um dos pontos que chamou a atenção dos investigadores foi a diferença entre os valores oficialmente divulgados e os efetivamente recebidos pelo presidente do TCE-MT. Segundo a PF, apenas R$ 288,5 mil foram publicados, embora os créditos identificados tenham alcançado R$ 15,44 milhões.
Após receber os recursos, o conselheiro teria realizado 150 saques em dinheiro. Desse total, 64 operações foram feitas diretamente no guichê bancário, movimentando R$ 15,47 milhões, enquanto outras 86 ocorreram em terminais de autoatendimento.
Relatórios de Inteligência Financeira também apontaram retiradas recorrentes de grandes quantias, algumas delas realizadas mediante solicitação antecipada de numerário às instituições bancárias. Em diversas ocasiões, os saques ocorreram em valores imediatamente inferiores aos limites que exigem comunicação automática ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
CHEFE DE GABINETE TAMBÉM É INVESTIGADA
Imagens do circuito interno de uma agência do Sistema de Cooperativas de Crédito (Sicoob), instalada nas dependências do Tribunal de Contas, reforçaram as suspeitas dos investigadores. O laudo pericial nº 10.306/2026 identificou operações repetidas de retirada e entrega de dinheiro com a participação de servidores do órgão. A maior parte dessas movimentações teria sido operacionalizada por Roseli Loss, chefe de gabinete de Sérgio Ricardo desde 1º de janeiro de 2024. Ela também é investigada na Operação Tomada de Conta.
De acordo com a Polícia Federal, o conselheiro ocuparia a posição de comando de uma estrutura de operadores financeiros responsável por transformar recursos retirados dos cofres públicos em dinheiro vivo.
Os investigadores sustentam que o poder administrativo de Sérgio Ricardo teria sido utilizado para favorecer empresas contratadas pelo tribunal em troca de propinas milionárias. Entre as práticas investigadas estaria a suspensão de contratos e o bloqueio de pagamentos a fornecedores, sob justificativas relacionadas a cortes orçamentários, como forma de pressionar empresas.
A corporação afirma que o presidente tinha influência sobre a autorização de contratos, a edição de portarias, a nomeação de ocupantes de cargos estratégicos e o funcionamento de setores envolvidos na emissão dos pagamentos suspeitos. Outro elemento destacado pela investigação é a continuidade das operações financeiras consideradas suspeitas mesmo após o início das diligências policiais.
Segundo a Polícia Federal, uma ação realizada em 14 de outubro de 2025 chamou a atenção dos responsáveis pelo esquema. Na ocasião, o sistema de controle de acesso do TCE-MT registrou a presença dos policiais, e a equipe de segurança abordou um agente que fazia observações no local. Depois desse episódio, os saques em espécie diminuíram temporariamente, mas o padrão de movimentação financeira teria sido posteriormente retomado.
Em manifestação encaminhada ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), o Ministério Público Federal (MPF) argumentou que os crimes investigados, especialmente organização criminosa e lavagem de dinheiro, possuem caráter permanente e que a estrutura suspeita continuaria em funcionamento.
O órgão também apontou que existem registros de saques, operações bancárias e pagamentos realizados pelo tribunal ao longo de 2026. A investigação menciona ainda aquisições patrimoniais posteriores, atos administrativos assinados pelo presidente e ampliação de dotações orçamentárias relacionadas às verbas sob suspeita.
PF DEFENDE PRISÃO DO PRESIDENTE
Ao solicitar a prisão de Sérgio Ricardo e de outros investigados, a Polícia Federal apresentou indícios de participação nos crimes e apontou riscos à ordem pública, à produção de provas e à aplicação da lei penal.
Para os investigadores, a permanência do conselheiro na presidência do tribunal representa um risco concreto de continuidade das irregularidades e de possível interferência nas apurações, considerando sua influência sobre servidores, contratados e setores administrativos. O Ministério Público Federal também defendeu, em parecer ao STJ, que os fatos são recentes e que a estrutura investigada ainda estaria ativa.
Em nota, o Tribunal de Contas de Mato Grosso afirmou que continuará atuando com responsabilidade e serenidade, respeitando a legalidade e o cumprimento de sua missão constitucional de controle externo.
Fonte: JuriNews